Os Frutos da Quaresma de São Miguel

Sermão em Honra de São Miguel Arcanjo
Pelo Rev. Padre Bráulio Maria, MHC
“Quis ut Deus?” — “Quem como Deus?”
Meus caríssimos Devotos,
Chegamos ao término de uma longa caminhada.
Durante estes dias, a Igreja militante se colocou de joelhos diante de Deus; nossas casas
foram perfumadas pelas orações; nossas famílias invocaram o Céu; nossas almas
procuraram a penitência; e, dia após dia, levantamos os olhos para aquele que a Santa
Igreja nos apresenta como o grande Príncipe das Milícias Celestes:
São Miguel Arcanjo.
E talvez hoje devêssemos perguntar: por que fizemos esta quarentena?
Foi apenas para obter alguma graça?
Foi apenas para alcançar uma proteção?
Foi apenas para pedir que São Miguel afastasse de nós alguma enfermidade, alguma
dificuldade, alguma tentação, algum perigo?
Tudo isso podemos e devemos pedir.
Mas, meus irmãos, seria pouco.
Muito pouco.
Porque São Miguel não foi enviado por Deus simplesmente para ser o nosso protetor
contra os perigos.
Ele foi constituído para nos ensinar uma coisa infinitamente maior:
a fidelidade a Deus.
I — “QUIS UT DEUS?”
Há um mistério escondido no próprio nome de São Miguel.
Quis ut Deus?
“Quem como Deus?”
Não é simplesmente uma pergunta.
É uma profissão de fé.
É um grito de guerra.
É a resposta de uma criatura diante da soberba de outra criatura que pretendeu colocar-
se no lugar do Criador.
Quando Lúcifer disse, em sua revolta, que não serviria, São Miguel respondeu:
“Quem como Deus?”
Quando o demônio quis fazer da criatura o centro de todas as coisas, São Miguel
proclamou:
“Quem como Deus?”
Quando o orgulho quis substituir a humildade, São Miguel proclamou:
“Quem como Deus?”
E esta é a grande lição que devemos levar conosco ao terminar esta quarentena:
Deus é Deus.
E eu não sou Deus.
A minha vontade não é a lei suprema.
Os meus desejos não são a verdade.
As minhas paixões não são o meu senhor.
O mundo não é o meu senhor.
O respeito humano não é o meu senhor.
O dinheiro não é o meu senhor.
A opinião dos homens não é o meu senhor.
Somente Deus é Deus.
E enquanto uma alma não aprender isto, ela ainda não começou verdadeiramente a vida
espiritual.
II — O verdadeiro campo de batalha
Meus irmãos, talvez tenhamos imaginado que o combate de São Miguel acontece
somente nas regiões invisíveis do mundo espiritual.
Mas há um campo de batalha muito mais próximo.
O nosso próprio coração.
É ali que frequentemente se repete a antiga batalha entre São Miguel e Lúcifer.
Porque, todas as vezes que Deus diz:
“Perdoa”,
e o nosso coração responde:
“Não quero”,
há uma batalha.
Quando Deus diz:
“Seja casto”,
e a carne responde:
“Quero fazer o que desejo”,
há uma batalha.
Quando Deus diz:
“Seja humilde”,
e o orgulho responde:
“Quero ser reconhecido”,
há uma batalha.
Quando Deus diz:
“Carregue a sua cruz”,
e a natureza responde:
“Quero uma vida sem sofrimento”,
há uma batalha.
Quando Deus diz:
“Permaneça fiel”,
e o mundo nos oferece uma vida mais cômoda,
há uma batalha.
E nessa batalha precisamos repetir:
Quis ut Deus?
Quem deve vencer?
Deus.
Quem deve ter a última palavra?
Deus.
Quem deve reinar?
Deus.
III — A penitência não é o fim: é o começo
Durante esta quarentena, talvez tenhamos feito sacrifícios.
Talvez tenhamos rezado mais.
Talvez tenhamos jejuado.
Talvez tenhamos renunciado a alguma coisa.
Talvez tenhamos experimentado tentações ainda maiores.
Talvez alguns tenham sentido uma aridez espiritual que não esperavam.
Talvez outros tenham recebido graças extraordinárias.
Mas agora chegamos ao fim.
E aqui está uma tentação muito sutil:
terminar a penitência e voltar à mesma vida de antes.
Não!
Se fizemos uma quarentena em honra de São Miguel e terminamos exatamente como
começamos, alguma coisa essencial ficou faltando.
Porque a penitência verdadeira não consiste simplesmente em suportar quarenta dias.
A penitência verdadeira consiste em permitir que Deus mude alguma coisa dentro de
nós.
Que ao final destes dias haja em nossa alma alguma vitória sobre o pecado.
Que exista maior domínio sobre a língua.
Maior vigilância sobre os olhos.
Maior disciplina sobre os sentidos.
Maior fidelidade aos deveres de estado.
Maior amor à oração.
Maior horror ao pecado.
Maior desejo de santidade.
Porque São Miguel não quer produzir em nós simplesmente pessoas que saibam invocá-
lo.
Ele quer formar soldados.
IV — São Miguel e os soldados de Cristo
São Miguel é chamado pela Igreja de Príncipe da Milícia Celeste.
E isso nos recorda uma verdade que o mundo moderno procura fazer desaparecer:
a vida cristã é combate.
Não estamos neste mundo para fazer turismo espiritual.
Não estamos aqui simplesmente para passar agradavelmente os nossos dias e depois
apresentar-nos diante de Deus.
Estamos aqui para conquistar o Céu.
E ninguém conquista o Céu sem combate.
São Paulo dizia:
“Bonum certamen certavi, cursum consummavi, fidem servavi.”
“Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.”
Observem as palavras do Apóstolo.
Ele não diz:
“Vivi tranquilamente.”
Ele diz:
“Combati.”
E São Miguel é o grande modelo desse combate.
Mas há algo extraordinário:
São Miguel não combate porque confia em si mesmo.
Ele combate porque Deus é Deus.
Seu nome não é:
“Eu sou poderoso.”
Seu nome é:
“Quem como Deus?”
Esta é a força do verdadeiro soldado de Cristo.
Ele não diz:
“Eu consigo.”
Ele diz:
“Deus pode.”
Ele não diz:
“Eu sou forte.”
Ele diz:
“A graça de Deus me sustenta.”
Ele não diz:
“Eu vencerei porque sou melhor.”
Ele diz:
“Se Deus estiver comigo, permanecerei fiel.”
V — A maior vitória de São Miguel
E talvez aqui esteja uma das mais belas lições que podemos aprender.
Qual foi a grande vitória de São Miguel?
Não foi simplesmente expulsar Satanás.
Foi algo ainda mais profundo:
São Miguel permaneceu no seu lugar.
Lúcifer quis subir.
São Miguel permaneceu debaixo de Deus.
Lúcifer quis ser como Deus.
São Miguel proclamou:
“Quem como Deus?”
Lúcifer quis a própria glória.
São Miguel quis a glória de Deus.
E aqui está o segredo da santidade.
Santo não é aquele que ocupa o lugar de Deus.
Santo é aquele que permite que Deus ocupe o lugar que Lhe pertence.
Por isso, meus irmãos, talvez a graça que devamos pedir ao terminar esta quarentena
seja esta:
“São Miguel, ensina-me a permanecer no meu lugar.”
Ensina-me a ser criatura.
Ensina-me a obedecer.
Ensina-me a aceitar a vontade de Deus.
Ensina-me a não querer compreender tudo.
Ensina-me a não murmurar diante da cruz.
Ensina-me a não abandonar o combate quando eu estiver cansado.
Ensina-me a dizer, em cada circunstância:
Quis ut Deus?
VI — “Quem é como Deus?” diante das nossas famílias
E como precisamos desta pergunta dentro de nossas famílias!
Quando uma família coloca Deus no centro, tudo encontra sua ordem.
O pai compreende a sua missão.
A mãe compreende a grandeza de sua vocação.
Os filhos aprendem a obedecer.
A autoridade torna-se serviço.
O sacrifício torna-se amor.
A oração torna-se alimento.
A casa torna-se uma pequena fortaleza contra o espírito do mundo.
Por isso, ao terminarmos esta quarentena, não deixemos São Miguel somente na igreja.
Levemos São Miguel para dentro de nossas casas.
Coloquemos sua imagem onde nossos filhos possam vê-la.
Invoquemos seu nome.
Rezemos a sua oração.
Peçamos-lhe que proteja nossos lares.
Mas, sobretudo, façamos com que em nossas casas exista aquilo que o nome de São
Miguel proclama:
Deus acima de tudo.
VII — E se amanhã vier uma grande tentação?
Talvez alguém pense:
“Padre, durante quarenta dias eu rezei a São Miguel. Mas e amanhã?”
Amanhã você continuará combatendo.
E depois de amanhã também.
Porque a vida cristã não possui um último dia de combate enquanto estivermos neste
mundo.
Hoje termina a quarentena.
Não termina a batalha.
Talvez amanhã venha uma tentação.
Talvez venha uma provação.
Talvez alguém nos contrarie.
Talvez soframos uma injustiça.
Talvez recebamos uma notícia dolorosa.
Talvez sintamos desânimo.
Talvez Satanás tente convencer-nos de que não vale a pena continuar.
Nesse momento, não esqueçamos o que aprendemos nestes dias.
Façamos o sinal da Cruz.
Elevemos o coração a Deus.
E digamos:
São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate!
E depois:
Quis ut Deus?
Quem é como Deus?
Minha dor?
Não.
Minha preocupação?
Não.
Meu inimigo?
Não.
Minha vontade?
Não.
Deus!
Somente Deus!
VIII — O grande combate da perseverança
Meus irmãos,
Há uma batalha que talvez seja ainda mais difícil do que começar.
É permanecer.
Começar é fácil.
Difícil é perseverar.
É fácil emocionar-se durante uma pregação.
Difícil é rezar quando não sentimos nada.
É fácil prometer.
Difícil é cumprir.
É fácil começar uma penitência.
Difícil é conservar seus frutos.
É fácil dizer:
“São Miguel, defendei-me.”
Difícil é dizer:
“São Miguel, ajudai-me a permanecer fiel quando ninguém estiver vendo.”
Mas é justamente aí que se prova o verdadeiro soldado.
Por isso, hoje não quero perguntar apenas:
“Quantas orações rezamos?”
Quero perguntar:
“O que mudou em nós?”
Há algum pecado que decidimos abandonar?
Algum hábito que precisamos corrigir?
Alguma virtude que começamos a praticar?
Alguma pessoa que precisamos perdoar?
Algum dever que devemos cumprir com maior perfeição?
Alguma negligência espiritual que precisa acabar?
Se sim, então a nossa quarentena não foi apenas uma contagem de dias.
Foi uma marcha espiritual.
E São Miguel esteve conosco.
IX — O último grito da quarentena
Meus caríssimos,
Hoje, depois de tantos dias de penitência, poderíamos imaginar São Miguel diante de
nós.
E talvez ele não nos perguntasse:
“Quantas orações fizestes?”
Talvez nos perguntasse:
“A quem pertence o vosso coração?”
E nós deveríamos responder:
A Deus.
“Quem deve reinar em vossa casa?”
Deus.
“Quem deve governar vossa vontade?”
Deus.
“Quem deve ser amado acima de todas as coisas?”
Deus.
“Quem é o Senhor da vossa vida?”
Deus.
E então, meus irmãos, compreenderemos que aprendemos a mais importante lição de
São Miguel.
Porque Quis ut Deus? não é somente uma pergunta dirigida ao demônio.
É uma pergunta dirigida a nós.
Quando estivermos diante de uma escolha:
Quem como Deus?
Quando precisarmos renunciar:
Quem como Deus?
Quando tivermos de perdoar:
Quem como Deus?
Quando a cruz parecer pesada:
Quem como Deus?
Quando estivermos sozinhos:
Quem como Deus?
Quando ninguém nos compreender:
Quem como Deus?
Quando formos tentados:
Quem como Deus?
E quando chegar a última hora de nossa vida:
Quem como Deus?
X — Conclusão: até a última batalha
Meus irmãos,
A quarentena termina.
Mas a nossa caminhada continua.
Hoje não devemos dizer:
“Acabou.”
Devemos dizer:
“Agora começa.”
Começa uma vida mais vigilante.
Começa uma vida mais penitente.
Começa uma vida mais fiel.
Começa uma vida mais profundamente entregue a Deus.
E quando um dia terminar a última batalha, quando nossa alma tiver de abandonar este
mundo, quando já não houver mais penitência a fazer, nem Rosário a rezar, nem batalha
a combater...
que São Miguel esteja junto de nós.
Que aquele que combateu contra o dragão seja nosso defensor.
Que aquele que conduz as almas diante de Deus nos acompanhe.
Que aquele cujo nome proclama a soberania divina nos ensine, naquele momento
supremo, a entregar tudo nas mãos de Deus.
E que possamos morrer como procuramos viver:
debaixo do senhorio de Deus, sob a proteção da Santíssima Virgem, assistidos por
São José e defendidos por São Miguel Arcanjo.
Então, meus irmãos, quando o último combate chegar, que o Céu possa ouvir de nossos
lábios aquilo que São Miguel proclamou no princípio da grande batalha:
QUIS UT DEUS?
Quem como Deus?
E a nossa alma poderá responder:
Ninguém, Senhor.
Só Vós sois Deus.
Só Vós sois meu Senhor.
Só Vós sois minha esperança.
Só Vós sois meu tudo.
São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate.
Sede nosso amparo contra as maldades e ciladas do demônio.
Que Deus manifeste sobre ele o Seu poder, instantemente o pedimos.
E vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo poder de Deus, precipitai no inferno a
Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as
almas.
E que ao terminar esta quarentena, possamos conservar no coração não somente a
lembrança de quarenta dias de oração, mas uma decisão para toda a vida:
pertencer a Deus, permanecer fiéis a Deus e combater por Deus.
Quis ut Deus?
Quem como Deus?
Ninguém!
Amém.
+ Em Nome do Pai...
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